Cervicalgia
Existe uma pasta no meu computador que eu escondo até de mim onde ficam meus rascunhos de textos: trechos, ideias de contos que tive preguiça de escrever, cartas que não mandei (🚩), e às vezes, lamento dizer, até poemas (🚩🚩), que eu precisei expelir da minha cabeça para conseguir ter uma boa noite de sono. Há algum tempo resgatei desse terreno baldio um arquivo .doc chamado Cervicalgia. Datava do começo de 2018; eu tinha me esquecido de que escrevi aquilo e, quando li, para minha surpresa, gostei. Não sei bem o que era, talvez uma crônica. Eu falei: “poxa, tá praticamente pronto, é curto, é despretensioso... eu podia fazer alguma coisa com isso” — e assim proferi as palavras amaldiçoadas que transformaram meu singelo devaneio da madrugada em um projeto.
Cervicalgia sofreu um longo exílio no deserto da crise criativa, onde deixou de ser despretensioso, de ser curto e de ser uma crônica. Chegou a ser roteiro de animação, projeto de história em quadrinhos e, por um momento, livro de colorir (juro por deus). Botei tanta energia em fazer desse troço algo impraticável que o próximo passo era transformar em uma montagem de balé no Theatro Municipal. Até que um dia eu reli e percebi que já era exatamente o que deveria ser: nada de mais. E, sendo nada de mais, aqui vai, sem mais delongas, meu pequeno conto. Espero que você leia em uma sentada durante o café da tarde e pense: hm.
(agora sim) Cervicalgia
Toda manhã, Celina acorda de sonhos intranquilos metamorfoseada numa uva passa. Estica na cama, com os grunhidos e os estalos de uma múmia invocada a contragosto por uma maldição. Seu braço busca um copo de água na mesa de cabeceira. É, quase sempre, o único do dia. Confere o celular onde nada a interessa por uma hora. Ela sai da cama e o namorado já foi para o trabalho. Ela vai deitar, ele já está dormindo há muito tempo.
Quando muito, ela toma um banho, troca o pijama pelo que é em essência outro pijama, senta na mais barata das cadeiras de escritório, em frente ao computador, e começa. Celina responde, estima, revisa, agenda, procrastina, atualiza, ajusta, encaixa, alinha, otimiza, envia, e já é ontem. Esqueceu de almoçar e de abrir as cortinas.
Amanhã eu vou me alimentar melhor, pensa, antes de começar tudo de novo — mas se faz o almoço, talvez pule a janta. Isso já dura um ano. O namorado desistiu há mais ou menos seis meses, pode ser que ainda leve um tempo para avisar a ela. Os amigos saíram da cidade e passam bem no Instagram. A mãe não saberia reconhecer um transtorno psicológico nem que por acaso também padecesse dele por toda a sua vida. O que Celina consegue fazer ela faz. Responde, estima, revisa e etc.
Como se pode perceber, ia tudo muito bem, até que, tentando alcançar o copo d'água naquela manhã, Celina ouviu o som tenebroso. Dessa vez foi mais que um estalo, foi um trovão, e veio do seu pescoço, seguindo por uma fração de segundo o clarão de uma dor insuportável, que a essa altura já alcançava os dedos do pé. Estava travada.
Até conseguiu sair da cama, comer um biscoito de um pacote aberto que deixou na geladeira e sentar em frente ao computador num ângulo esdrúxulo. Mas nem uma hora depois viu que ia ter que desistir, porque levantar os braços fazia perder a sensibilidade nas pernas. Foi ao cesto de remédios, escolheu um entre os vários comprimidos soltos no fundo — o que tinha mais chances de ser um relaxante muscular — e engoliu com um gole de coca-cola. Perto do meio dia, como a dor só aumentava, tentou outro, esperando que a levasse pelo menos até o mercado.
A lata de atum escapole e cai no chão. Celina deve estar há uns bons minutos tomando coragem para abaixar no corredor, quando toma três tapinhas no ombro de um leque imenso. “Aiaiai, o meu pescoço!”. “Estou com pressa”, a velha diz sem nem olhar na sua cara. Celina consegue murmurar um “então passa por cima”, mas a desgraçada já vai longe. Celina quer entrar no freezer e tirar um cochilo com os nuggets. Em vez, continua vagando nessa porcaria de mercado até achar três coisas que configurem uma refeição. Já no fim do efeito de seja-lá-o-que-for que tomou, cambaleia até os caixas, a cada passo mais próxima do urubu do que do macaco, com os ombros pendurados nas orelhas. Fila infinita. Foda-se, ela apoia a cesta no caixa preferencial. Descarrega o primeiro produto e — PÁ. É o leque de novo. “Aqui é caixa preferencial”.
“Eu sei” — só agora Celina percebe que apertou os dentes o dia inteiro e mal consegue separá-los para falar. A velha é uma cabeça menor do que ela. O traço do delineador passa a uma distância inconsistente da linha dos cílios, tanto em cima como embaixo. Um careca da fila ao lado provoca: “A senhora vai deixar ela passar na sua frente?”. A caixa do supermercado aproveita para trocar de turno. A velha arma outra vez o leque florido, que parece ter função exclusivamente marcial: “Eu estou com pressa”. “Eu também”, Celina responde, “e só tenho isso” — levanta as suas compras idiotas. O movimento faz seus olhos lacrimejarem. Com a cabeça paralisada na diagonal, usa o corpo todo para olhar para os participantes dessa discussão, que agora já são vários. “É brincadeira, né?”, diz outro velho. “As pessoas são muito folgadas”, complementa uma mulher empurrando, num carrinho de bebê, uma criança grande o suficiente para declarar o imposto de renda.
Celina já não escuta mais nada além de um apito estranho, tenta sair da fila, mas não se mexe. Agora vê aquela maquiagem enrugada na altura da sua cara, e bem perto: “O que você tem?”. “Torcicolo”, diz, diminuindo — já fora de foco, a inimiga começa a abanar Celina no chão. Alguém para um táxi e instrui o motorista a deixar a garota no centro de ortopedia, sem perguntar se ela tem como pagar pela corrida, ou pela consulta. Celina só percebe chegando ao destino que ficou com o leque e perdeu as compras de mercado.
O ortopedista chamado Fernando é muito alto, de forma que o pescoço paralisado de Celina só permite ver seu tórax. Ele pergunta nome e profissão. Ela responde, quer dizer, palavras saem da sua boca como de um balão de gás se esvaziando [inaudível]. Fernando pergunta o que a traz até alí. Dessa vez Celina apela para um substantivo: pescoço. Funciona, a ortopedia é a especialidade médica mais concreta. “Vamos olhar o seu pescoço, então. Dói aqui?” “Sim”. “Onde mais?” “Sim”. Ele a guia até um salão amplo com cadeiras de plástico retorcido. Não sabe dizer se Fernando é bonito, já que não tem cabeça, mas gosta dele — da sua solidez. Mal pensa nisso, ele desaparece num labirinto de corredores brancos.
Vê que o salão está cheio de pessoas ligadas em eletrodos, massageadores no formato de telefones fixos, alarmes e mostradores luminosos. Alguém se aproxima e começa a conectar nela os eletrodos: “volto em 20 minutos”. Celina pensa em fazer alguma pergunta, mas já perdeu o interesse, então fecha os olhos. Alí, sem conseguir bem se mexer nem ficar parada, ligada numa nave espacial de baixo orçamento, quiçá induzida por relaxantes musculares e um princípio de inanição, teve uma experiência extracorpórea.
Numa outra vida ela acordava com a luz do sol. Estava deitada de bruços na terra vendo formigas passarem com folhas de várias cores e formatos. Não sabia de que tamanho era nesse sonho, se pequena como uma criança ou minúscula como as formigas. Sabia que tinha mãos e barriga porque sentia elas úmidas e sujas da terra, mas não via nenhuma parte dela mesma, como nos simuladores virtuais, que projetam o mundo ao redor, mas esquecem os seus pés. Estava no jardim da casa onde costumava morar, e todos os seus parentes mortos estavam lá, desde os mais próximos até os primeiríssimos, com seus músculos símios. Havia espaço suficiente porque o jardim era infinito e todos ocupavam o mesmo corpo. Ela agora comia fruta e cuspia os caroços na terra, que brotava imediatamente. O gosto da melancia era um gosto perdido, não existe mais, impossivelmente refrescante, a sua fruta favorita. Começou a cuspir seus dentes, também, e deles nasceram pés de feijão. Sempre ficou impressionada com a velocidade com que nascem os pés de feijão — mas talvez não fosse feijão, porque as mudas viraram árvores, enormes e milenares. Eram milenares, tinha acabado de assistir elas crescerem por mil anos. Teve uma vontade incontrolável de escalar as árvores, coisa que não sabia que era capaz de fazer. Estar fora do seu corpo a tornava muito mais sensível ao seu funcionamento perfeito: mãos de cinco dedos que seguravam habilmente nos galhos e pés de cinco dedos que impulsionam para cima, todos úteis, até o mindinho, gloriosamente liberto das gerações de tênis e botas que o transformaram em uma bolotinha de carne. E o pescoço, não só não doía como permitia ver em todas as direções, como uma coruja. Soprava um ar limpo, com cheiro de chuva recente e suor.
Alcançou o último galho da copa e podia ver tudo estendido lá embaixo. O início e o fim do mundo. Nem feio, nem bonito, só imenso. Terra que não precisava ser cultivada, continentes que não precisavam ser descobertos, ruas que não tinham sido construídas, água que ainda podia ser bebida e gente que não tinha que trabalhar. Eletrodos não eram uma coisa, mas talvez existisse algum outro tipo de magia. Antes que sentisse medo de altura, sua mãe e, através dela, sua avó, e a velha do mercado, e sua professora de matemática da quinta série, que também não sabia passar delineador, todas disseram: “Não olha pra baixo”. Obediente, ela olhou para cima. Era fim de tarde e o céu estava cor de rosa, cheio de carneirinhos — uma formação de nuvens que, de acordo com a sua avó, significa que amanhã vai ter ventania. Não tinha céu assim na cidade e ela queria continuar vendo as nuvens mudarem de forma, mas olhar para cima deu vertigem, então verificou as notificações no celular.
Quando acabou a terapia com os eletrodos, foi conduzida até os telefones fixos, onde esfregaram suas costas com um gel frio por mais 10 minutos. Isso foi agradável. Ainda não sentia muito alívio da dor, mas a recomendação era que retornasse por mais quatro a dez sessões. O tórax do gigante Fernando apareceu mais uma vez na sua frente com algumas considerações finais: “Nos próximos dias evite fazer movimentos bruscos”. Ótima ideia. “A posição ideal pra dormir é de lado, com um travesseiro entre os joelhos”. Certo. “Celular: segurando assim na frente do rosto, ok? – Não olha pra baixo”. Sentindo um súbito afeto pelo Fernando, disse: “Eu não poderia se eu quisesse”. Com dois tapinhas brutos no ombro de Celina, como se tivesse acabado de deletar a memória de que ela estava com dor na cervical, ou sequer de que tivesse estado alí, ele a liberou.
Passou na farmácia e, munida de um remédio mais violento, começou a melhorar em poucas horas. Naquele dia não trabalhou. O namorado botou uma série de que ela não gostava e assistiram a três episódios seguidos. Em mais uma ou duas sessões de fisioterapia o pescoço começou a se movimentar normalmente e ela pôde abandonar as sessões restantes. Já conseguia olhar pra baixo de novo, olhar pra baixo o tempo todo, como todo mundo.
Mais ou menos a ver
Eu acho que estava lendo Donna Haraway quando escrevi essa história.
Gostei muito de um filme chamado Sick of Myself (2022). Também tem uma protagonista antissocial que se envolve em aventuras médicas, mas acho que as semelhanças acabam aí.
Bem a tempo de apertar o botão de enviar, eu descobri o podcast Zumbir, “um podcast afrofuturista de ficção e entrevista”. Achei genial.
Quando ensaiei fazer uma HQ, recorri à talentosíssima Mayara Lista, que me orientou bem demais. Fiz? Não fiz. Mas reescrevi o texto tendo em mente o que ela me ensinou sobre enredo e ficou bem melhor.
A capa e ilustração dessa edição foram adaptadas do curta “A Silly Symphony: The Skeleton Dance”, que entrou em domínio público agora em 2025.
Estou no empenho para fazer disso aqui uma publicação quinzenal. Na próxima, quero falar de ladrões de tumbas.
Até já! 🕒









sensacional!!!!
Feliz pelo texto ter saído do cemitério das ideias (seja uma pasta escondida, seja nosso julgamento anterior à execução). Que venham mais e mais, Domi!