Notas sobre o meu avô
Meu avô tinha dedos de salsicha, ou daqueles pesos de porta roliços cheios de areia. Quando apoiava a mão maciça na minha cabeça, eu afundava no chão um pouquinho. Sempre me senti leve demais. Na mesa, enquanto a família discutia as notas do meu primo na escola, ou os problemas da vizinha com as filhas, eu saía flutuando, a cabeça ia resvalar lá no teto. Meu avô às vezes me puxava de volta, com três tapinhas na minha mão e uma piscadela.
Quando era jovenzinho, foi escriturário. Depois caixeiro viajante: vendia porcas, parafusos e dobradiças. Um viajante que não contava história, mas gostava de ouvir. Gostava de coisas miúdas, letras e números. Fazia a contabilidade até tarde, na mesa da sala, com os óculos na ponta do nariz. Uma vez eu levantei sonâmbula e disse pra minha mãe que ia na tesouraria. Passei lá, dei um beijinho na testa brilhante dele e voltei pra cama.
Ele escrevia postais e bilhetes bem diretos. Cartas não. Recortava matérias do jornal e guardava quando achava que tinham alguma coisa a ver comigo, e tinham. Fazia isso pra todo mundo. Fazia listas de todos os aniversários e colava nas paredes. Tinha um calendário grande em cima do telefone fixo e várias folhinhas de bolso. A lista telefônica ficava em uma das suas três gavetas, meus compartimentos favoritos da casa, onde também ficavam o chamequinho, o grampeador e o furador de bolinha. Envelopes, fichas, papel quadriculado, carbono. No dia em que fui lá me despedir dele, minha mãe me mostrou um caderno em que, com aquela letra cursiva impossível pra dedos tão grandes, ele anotou as quantidades e os preços dos tijolos furados, tijolos maciços, telhas, sacos de areia, válvulas, tubos, joelhos, portais, janelas e maçanetas, e páginas e páginas de materiais, até os quilos de pregos — sob o título “Despesas para a construção da nossa casa. 15-12-1956”.
Era concreto. Nos sábados de manhã íamos ao parque, nos domingos comprávamos o jornal, o frango assado pro almoço e um buquê de flores. De tempos em tempos ele me levava de carro pra buscar biscoitos direto na fábrica. Tudo que a gente fazia juntos tinha um objetivo, mas também um cheiro, uma textura, um gosto. Quando saí de casa, ele começou a me devolver por correio, no meu aniversário, os cartões que eu tinha feito quando pequena para os aniversários dele. Reaproveitamento.
Era um mistério. Em nossa proximidade distante, acaba que não soube muito, quase nada, sobre ele. Nem sei se isso é ruim. Tenho tentado respeitar, aprender, até, com quem não anda por aí transparente. Mas tínhamos nossos entendimentos. Quando dava os cinco minutos, ele me pedia: Fala uma coisa bonita! Essa eu sabia responder, sempre soube: Eu te amo! E ele ria: Aah! Isso é mesmo uma coisa bonita!
E não é?
Para Seu Arlindo (1934 - 2025)





Que coisa mais linda. Me inspirou a escrever sobre meu avô também :')
Lindo demais. Tenho esse amor por minha avó que já se foi. Ela me criou e moldou o que sou hoje