Quimeras
Em que eu tento te convencer a ver um filme italiano e me meto na infância dos outros.
No meio da noite, em alguma praia na Itália, um grupo maltrapilho de ladrões de tumbas descobre a entrada bloqueada de uma caverna. Eles ainda não sabem o que vão encontrar nela, mas nós sabemos: enquanto eles cavam, já estamos lá dentro, acostumando os olhos ao escuro para ver delicadas figurinhas de cerâmica na forma de animais, a estátua de uma mulher com um leão aos seus pés, objetos da cultura etrusca, anterior aos romanos, intocados há milhares de anos. Esse lugar existe assim, fora do tempo, só para nós, observadores impossíveis: quando os ladrões conseguem abrir a primeira fresta, já era. As pinturas nas paredes desbotam com a velocidade da passagem dos séculos em um segundo. Os animaizinhos não são mais sagrados, são só bibelôs. Os invasores ainda respeitam o silêncio por um momento, antes de começarem a pegar o que conseguem. Meus olhos enchem de água no cinema, mas não sei bem o porquê.
Nenhuma das pessoas para quem eu recomendei esse filme (todo mundo que eu conheço) tinha ouvido falar dele. Olha que tem uma atriz brasileira em um dos papéis principais, e a gente adora ver brasileiro ser reconhecido na gringa. A personagem que a Carol Duarte interpreta em La Chimera é imigrante na Itália e seu nome é Itália. Acho isso bonito, porque já indica que a Itália que a diretora Alice Rohrwacher quer mostrar não é a que estamos acostumados a ver. Itália, a brasileira, não é a protagonista (ou talvez seja, mas ainda vou chegar lá). O herói mesmo é Arthur, também um imigrante nesta cidade e neste tempo não-determinados. De acordo com a sinopse, La Chimera se passa nos anos 80, mas isso não parece importante, quase tudo que se vê são ruínas de outra época. Arthur, o inglês, foi arqueólogo, agora é saqueador. Usa o mesmo terninho de linho encardido em boa parte do filme, o que sugere tudo que precisamos saber: que ele está empacado; que não tem dinheiro ou não teve sorte; que é essencialmente honesto, de um jeito meio das antigas, apesar dos negócios questionáveis em que está metido. Arthur tem poucos diálogos, até porque não parla muito bem. Quem se encarrega de lhe ensinar italiano é Itália, e o faz apenas através de gestos. É uma bela cena, os dois estrangeiros gesticulando pelas costas dos outros personagens, se entendendo quase sem palavras. Quando falam, é por falar. “Posso?” ela pergunta em português, já tirando o cigarro da boca dele. “You can keep it”, ele responde.
Os cenários de La Chimera são cheios de poeira, rachaduras, tinta descascada e vazamentos. São casarões caindo aos pedaços, barracos, estações de trem abandonadas e cavernas. Arthur está sempre perto da terra e sabe por instinto onde cavar para encontrar os tesouros dos mortos. Na verdade, ele tem poucos laços entre os vivos: além do seu bando de tombaroli, que não parecem amigos dos mais confiáveis, só tem Flora, uma professora de canto idosa que vive em uma mansão decadente. Flora é cheia de filhas, uma das quais só aparece nos sonhos de Arthur, puxando um fio de linha vermelha que desfia do seu vestido de crochê. O fio está lá porque, com o perdão do trocadilho, a diretora não dá ponto sem nó: é uma representação da ligação entre ele e essa mulher no outro mundo, claro; mas o fio também costuma representar o destino. Como eu disse, Arthur é o herói do filme, e mesmo que seja um herói meio sem vontade, todo herói é condenado a cumprir o seu destino.
Não é fácil escrever sobre algo que foi feito para ser assistido. Confesso que já estou aqui relendo algumas frases com cara de quem bebeu kombucha, mas me dêem esse momento Isabela Boscov. É que La Chimera segue fervilhando na minha cabeça desde que saí da sala do cinema, e foi um dos acontecimentos do ano passado que me fizeram voltar a ter vontade de contar histórias. Alice Rohrwacher passou a infância em uma cidadezinha onde os vizinhos casualmente encontravam artefatos de culturas extintas no jardim, e isso fez com que ela crescesse consciente de dividir esse mundo com os mortos. Sou dessas que acha que toda inspiração vem da infância, a depender de qual era a fonte de magia mais próxima. Para mim (que também sou de cidade pequena, só que na serra fluminense), eram os objetos de segunda mão, as revistinhas de artesanato e as casas mal assombradas. Saber o que move a sua imaginação é como acessar um poder: ele te puxa na direção certa, como a intuição de Arthur aponta os sítios arqueológicos. Conforme mudamos, ano a ano, os temas continuam os mesmos, mas nosso olhar sobre eles é diferente. La Chimera me parece o fruto de um olhar muito maduro, porque passa longe de ser uma romantização do passado. Em vez, fala de pessoas que sobrevivem do que sobrou, e como há muitas formas de fazer isso.
Arthur transita entre ruínas, nem cá, nem lá, como um fantasma. Flora espera o retorno de algo que não vai voltar. O bando de ladrões pilha e vende tesouros por uns trocados, enquanto a figura misteriosa com quem negociam a venda no mercado clandestino de arte só quer espremer desses objetos, que já foram sagrados, o maior lucro possível. Dentre todos, Itália é quem melhor sabe dar nova vida a esse lugar. Aluna de canto de Flora, Itália canta mal, o que dá a entender que as duas têm um acordo de conveniência (conveniente, mas não justo): a aluna tem onde morar, a professora tem uma empregada. Como a casa é enorme, Flora nem repara que Itália trouxe os dois filhos com ela. O contraste entre o bando de Arthur, barulhento e agressivo, e a comunidade alegre que Itália acaba estabelecendo com outras mulheres e crianças, em um prédio abandonado, me fez pensar na “teoria da sacola” (ou da cesta, dependendo da tradução).
Ursula Le Guin, com seu senso de humor habitual, especula sobre a origem da “jornada do herói”, a estrutura narrativa mais popular, comparando-a a uma lança ou uma flecha: ferramentas usadas na caça e na guerra. A jornada do herói é movida pelo conflito, é sobre superar, conquistar, vencer, ou então é sobre fracassar. É uma história em alguma medida violenta e de modo geral masculina. Em seu lugar ela propõe uma outra estrutura, uma representada por uma sacola ou uma cesta, uma tecnologia ainda mais fundamental em uma sociedade de caçadores-coletores do que qualquer arma. Fazer ficção como cesta seria narrar a relação entre as coisas, seus muitos modos de coexistência que não o conflito, observar aspectos mais singelos da experiência como se fossem tão interessantes quanto uma batalha.
Ladrões aventureiros são um tema ‘fácil’ para uma história. La Chimera brinca com isso quando me aparece com trovadores narrando as peripécias do bando em forma de canção. Mas Alice Rohrwacher não permite que a história seja só sobre eles; coloca todos os seus personagens, observações e perguntas em uma cesta e conta uma história mais difícil, na qual Itália é o principal contraponto ao herói. Itália é uma personagem que parece livre do enredo, ela entra e sai dele fazendo o que quer. Tem curiosidade, paixões e pessoas de quem cuidar, por isso muda de rumo quando precisa. Em certo ponto, Itália oferece uma alternativa para Arthur, que ele também solte o fio da narrativa e abandone o seu destino. Acho que até agora fui bem em não estragar o filme, por isso não vou contar o que ele decide. Mas é como se a oferta ficasse de pé também para quem está assistindo.
Fiquei emocionada com La Chimera não porque tenho um grande apego pela cultura etrusca (embora a gente possa concordar que a arte dos caras era braba, por favor dêem um zoom nessas orelhas!), mas sim porque me dei conta alí, naquela cena da caverna, de que a única entrada para o passado é a memória, e toda vez que ela abre, o que encontramos lá dentro deteriora mais rápido. Ninguém lembra das coisas ou as preserva exatamente como eram e isso é algo que nunca deixa de nos atormentar. Mas também, ninguém deveria viver no passado. Não dá pra sobreviver numa caverna fechada.
Fiz uma escavação arqueológica na memória alheia, isto é, cheguei em algumas pessoas queridas e disse: “fala aí duas influências da sua infância, é pra um negócio”. Segue o meu breve inventário.
A nave espacial da Xuxa e os adesivos de banca de jornal são memórias que atravessam os letterings e as ilustrações pop do Lê.
Os discos do irmão mais velho e o graffiti que via pela cidade da janela do ônibus ajudaram a fazer do Brunno o artista gráfico que é.
Pelo traço expressivo da Ju dá pra ter uma ideia de que ela gostava da Bruxa Onilda e da Mafalda.
As ilustrações da Bia têm a simpatia dos livros da Ninoca, e são, muitas vezes, uma afirmação dos prazeres de não fazer nada (algo que só na infância conseguimos aproveitar por completo).
Quem conhece as animações do Diego logo imagina que ele jogava videogame e assistia adult swim, mas talvez ficasse surpreso com a frequência com que As Meninas Superpoderosas aparecem nas nossas conversas.
Mayara gostava de desligar a tevê quando acabava Inuyasha e imaginar os próximos episódios, histórias alternativas que registrava em gibis caseiros.
Lucas cresceu admirando o Castelo Rá-Tim-Bum e, especificamente, o cabelo do Yugi, no anime Yu-Gi-Oh!
Por último, queria deixar na íntegra, porque é bonito, o depoimento da diretora sobre o filme La Chimera (tirei do site do IMS):
“Onde eu cresci, era comum ouvir histórias de descobertas secretas, escavações clandestinas e aventuras misteriosas. Bastava ficar no bar até tarde da noite ou parar em uma pousada do interior para ouvir falar de fulano de tal que havia descoberto uma tumba vilanovense com seu trator, ou de outra pessoa que, cavando na necrópole certa noite, havia descoberto um colar de ouro tão longo que poderia dar a volta completa em uma casa. Ou outra pessoa que ficou rica na Suíça com a venda de um vaso etrusco que encontrou em seu jardim. A vida ao meu redor era composta de diferentes partes: uma solar, contemporânea e movimentada, outra noturna, misteriosa e secreta. Havia muitas camadas, e todos nós as experimentávamos: bastava cavar alguns centímetros do solo, e o fragmento de um artefato feito pelas mãos de outra pessoa aparecia entre os seixos. De que época ele estava olhando para mim? Bastava entrar nos celeiros e nas adegas ao redor, para perceber que eles já haviam sido outra coisa: tumbas etruscas, talvez, ou abrigos de eras passadas, ou locais sagrados. A proximidade entre o sagrado e o profano, entre a morte e a vida, que caracterizou os anos em que cresci, sempre me fascinou e deu uma medida à minha maneira de ver. É por isso que finalmente decidi fazer um filme que conta essa história em camadas, essa relação entre dois mundos, a última parte de um tríptico sobre uma área local cuja atenção está concentrada em uma questão central: o que ela deve fazer com seu passado? Como dizem alguns ladrões de túmulos, em nosso caminho são os mortos que dão a vida.”
Até já 🕒






Vindo atrasada ler e comentar das orelhas 👂🩵
Finalmente convencida de ver esse filme! 😋